Haicai, a delicada arte da poesia japonesa

Há algum tempo tive a oportunidade de ouvir o Consul Japonês palestrando sobre a pintura em seu pais. Com toda sua tranquilidade oriental, com gestos leves e quase coreografados ele contava o quão importante para seu povo é o espaço. Em um pais muito pequeno em comparação ao nosso, o espaço é cada vez mais escaço e valorizado, fazendo com que o povo otimize ao máximo sua ocupação e utilização. Essa escassez de espaço influencia a arte, enaltecendo a natureza e os grandes espaços vazios nas pinturas e também na poesia, nos haicai, os delicados e atuais poemas japoneses.

A linga japonesa se difere da nossa em muitos aspectos, neste sentido o haicai tem sua estrutura limitada a 17 sons. Para nossa gramatica isso se traduz em 17 silabas. 17 sílabas poéticas. Sílabas poéticas são diferentes de sílabas gramaticais.

O poema completo se divide em exatamente 3 linhas. Sugerindo uma estrutura de 5, 7 e 5, porém esta organização de sons nas linhas não é rígida, podendo ser alterada a vontade do poeta.

O haicai, deve ainda falar do sentimento imediato do poeta, sem necessidade de rimas. O poeta é livre para sua construção, porém deve-se ressaltar um aspecto de natureza em seu poema. Pode-se referenciar a primavera falando de flores, o outono com a ausência de folhas, o frio do inverno e a areia quente das praias no verão. Mas a natureza deve estar sempre presente.


Matsuo Bashô (1644-1694)
hana no kumo
kane wa ueno ka
asakusa ka

Nuvem de flores –
Este sino será de Ueno?
Será de Asakusa?

A cabana de Bashô situava-se em Edo, antigo nome de Tóquio, quase às margens do Rio Sumida, na localidade de Fukagawa. Na margem oposta, a distância, era possível observar o Templo Sensôji em Asakusa. Um pouco além, também seria possível divisar o Templo Kan’eiji, em Ueno, locais hoje separados por algumas estações de metrô. Porém, na primavera, a paisagem era dominada por uma grande massa de cerejeiras floridas, como se houvesse uma nuvem pairando sobre a terra. Quando o poeta ouviu um sino tocar, não conseguiu distinguir de qual dos templos provinha, encobertos que estavam pelas flores. Seria Ueno ou Asakusa? Devido ao clima de tranqüilidade primaveril, pode-se imaginar que o sino é o do meio-dia, quando a temperatura é tépida e agradável, em contraste com o frio do entardecer. Bashô era freqüentemente requisitado a caligrafar esse haicai, prova de que o poema foi muito popular em sua época. A estrutura em forma de pergunta revela a atitude confortável e despreocupada do autor. O kigo (termo de estação) é hana no kumo (nuvem de flores de cerejeira).

Haicai publicados pelo Nippo Brasil:

Acácia em flor
De repente o vento
Chuva de ouro. – Lourdes Fontes – Rio de Janeiro-RJ

O pó amarelo
bem na ponta do nariz.
Acácias florescem. – Neide Rocha Portugal – Bandeirantes-PR

Somam gerações
na colheita de café –
Sabor de saudade. – Vilma Ávila Vianna – Santos-SP

Um risco no céu
encoberto pela noite –
Estrela cadente! – Mônica Martinez – Carapicuíba-SP

fonte: nippobrasil

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Autor: Junior de Castro

Viciado em pessoas, ainda em construção e sempre em busca de mais empatia. Cozinheiro, aprendiz de aquarela e com ideias para dividir :)

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