Caminho de Santigo, enfim o primeiro passo

Enfim como um recém-nascido, dou meus primeiros passos no Caminho de Santiago. Saio da cidade de Saint-Jean-Pied-de-Port rumo aos Pirineus, tecnicamente o dia mais difícil da caminhada, quase 1000 metros de inclinação distribuídos ao longo do dia.

Não se esqueçam de sugerirem, criticarem e participarem da construção deste livro que representa cada peregrino em suas jornadas pessoais.


Criança nunca caminha,
curiosidade a guia,
e tem pressa.

Como recém-nascido levanto pela manhã para iniciar a caminhada, acordo com uma deliciosa preguiça sob varias camadas de cobertas na cama macia e aconchegante, saio dela quase que prontamente, ao segundo toque do despertador. Vou para o banho, tomo uma ducha quente que me deixa mais desperto, a mochila já esta pronta e a roupa para o primeiro dia também. Mochila nas costas desço escadaria alisando o corrimão. Já no restaurante o café-da-manhã me espera, o silencio impera entre todos que ali estão, imagino que todos estejam concentrados nas próprias expectativas do caminho, mas nem sei se todos irão a ele. Tomo vagarosamente o café até que o relógio mostre a hora marcado para encontrar Torres e Boyco a porta, havia pego frutas e um corassant do café para levar a eles, visto que não sabia se tinha café no albergue, os dois já tinham se alimentado, mas não recusaram a oferta.

Ainda um pouco desorientados em nossos primeiros passos sem equilíbrio seguimos pela cidade a procura das setas amarelas e não demorou muito a encontrar as primeiras, e logo que as encontramos avistamos outros peregrinos. Ver outros peregrinos me dava a sensação de estar no caminho certo e quanto mais caminhávamos mais peregrinos avistávamos. A saída de Saint-Jean é a subida de uma ladeira estreita, cercada por casas, onde alguns carros passavam vez ou outra.

O dia ainda estava por amanhecer, as luzes dos postes iluminavam o caminho e a manhã úmida e agradável, trás frio ao corpo recém acordado. As montanhas ao redor escondem o Sol que luta para rompê-las e aquecer a terra e durante este embate entre o Sol e as montanhas seguimos a acende-las lentamente e aos poucos vemos espaços surgindo entre as casas e não demora até vê-las se esvaírem por completo e  deixarem de fazer parte da paisagem.

O caminho agora é em meio a propriedades rurais que somem no horizonte cercado pelas mesmas montanhas que insistem em segurar o Sol. A pastagem é de verde intenso e alguns animais se alimentam ali. A subida é embalada pelo bate-papo sempre dominado por Boyco e suas muitas historias, a caminhada é cada vez mais ascendente e meu fôlego já não é o mesmo de quando me levantei, os primeiros sinais de cansaço começaram a aparecer, mas sigo firme e em ritmo com meus amigos, o ritmo da caminhada é firme e compassado e de alguma forma sinto que não poderei muito mais agüentar aquele compasso. Mal esse sentimento chega e percebo que preciso parar para um descanso, o ritmo forte está além do que meu corpo permite e já estou além do meu limite. Faço uma pequena pausa, tomo ar, sinto a brisa fria da manhã sobrar meu corpo já bastante suado e logo continuo até de forma mais acelerada para alcança-los; poucos minutos depois já estou na mesma exaustão. Faço mias uma breve pausa e tento outra vez seguir no ritmo deles, mas logo vejo que é inútil insistir e entendo que seria hora de quebrar pela primeira vez o orgulho no caminho e dizer aos meninos que não posso segui-los, que continuarei logo atrás. E foi o que fiz.

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Autor: Junior de Castro

Viciado em pessoas, ainda em construção e sempre em busca de mais empatia. Cozinheiro, aprendiz de aquarela e com ideias para dividir :)

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