Quase sem água, com sede, no alto dos Pirineus

Quase sem água, cansado, distante do fim e já quase em desespero.

Não se esqueçam de sugerirem, criticarem e participarem da construção deste livro que representa cada peregrino em suas jornadas pessoais.


Verifico no GPS o quanto já caminhei e vejo que ainda falta bastante, mas o que realmente me preocupa é que minha água já esta praticamente no fim. Deve me restar apenas alguns goles. Resolvo fazer uma pausa para comer um pouco e descansar, apesar de me sentir bem, não quero exagerar no primeiro dia, sei que ele é muito duro. Encontro um lugar e me sento para comer um pouco. Minha boca já esta muito seca e não tenho saliva para engolir o que me resta do bocadilho, minhas roupas estão encharcada do suor da subida. não há  nenhuma fonte d’água a vista e começo a me preparar para terminar o dia sem água.

Me questiono de porque não apanhei mais água na fonte de Orisson. Tento me distrair com a paisagem nova com a vegetação e as delicadas flores que adornam toda a montanha e por alguns instantes me esqueço um pouco da falta d’água, mas não demora muito e o pensamento da escassez dela volta a rondar meus pensamentos, ali percebo que não sou um peregrino de meio litro d’água, preciso sempre carregar mais que isso. É incrível como a privação cria uma necessidade que toma conta de todos os pensamentos, mas não há nada a fazer naquele momento a não ser caminhar firme e tentar esvaziar a mente.

Já estou há algum tempo sem encontrar nenhum peregrino, o vento continua frio e úmido e a montanha nevada cresce a minha frente. Sem esperanças de encontrar água em um ponto tão alto começo a pensar que se a sede ficar insuportável colocarei neve na garrafa e beberei. Li certa vez que o limiar da sede começa com a perda de meio por cento do seu peso em água, eu suei tanto na subida que acho que já perdi pelo menos cinco por cento do meu peso e deve ser por isso que me sinto assim tão sedento.

A paisagem continua encantadora e continua a me distrair um pouco, aproveito para tirar algumas fotos e para minha surpresa durante uma dessas fotos registro um som muito característico e universal. Esse som eu poderia reconhecer em qualquer idioma e em qualquer país, era o som de água jorrando, apertei o passo e o som ficava mais intenso a cada passada até que finalmente a vi. Uma fonte cheia d’água, tão cheia que transbordava pela estrada descia a encosta da montanha. Era incrível ver água jorrando em um ponto tão alto, a água era límpida e cristalina, era um sonho se realizando, tratei de me adiantar e colocando as mãos em concha e me deliciei com aquele liquido fresco, límpido, puro e inodoro. E como algo tão sem sabor pode ser tão gostoso, na verdade água tem sabor sim, sabor refrescante e molhado. Aquele foi o momento na minha vida que mais valor dei a um bom gole d’água.

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Autor: Junior de Castro

Viciado em pessoas, ainda em construção e sempre em busca de mais empatia. Cozinheiro, aprendiz de aquarela e com ideias para dividir :)

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