Subida aos pirineus

Com um amigo em ritmo igual a subida fica mais leve, a paisagem encanta cada vez mais, mas as histórias fazem a emoção aflorar.

Não se esqueçam de sugerirem, criticarem e participarem da construção deste livro que representa cada peregrino em suas jornadas pessoais.


Torres e Boyco conversam com outro peregrino, não estou muito atento a conversa e sendo assim não sei do que estão falando, guardo a parte que restou da experimentação  do bocadilho, compro uma garrafa d’água e estou pronto para sair.

Quando vou a mesa para despedir de Torres e Boyco, Torres resolve me acompanhar, lhe digo logo que não consigo acompanhar seu ritmo e ele resolve mesmo assim me acompanhar de forma mais leve para que possamos conversar. Caminhamos lentamente pela  estreita via asfaltada onde vez-ou-outra um carro passa lentamente por nós, de dentro dos carros motoristas acenam ou gesticulam em cumprimentos calorosos e incentivadores.

O clima continua fresco e agradável e ter companhia para conversar é uma ótima pedida. Conversamos sobre a vida em nossos países as diferenças de economia, cultura, gastronomia e todos os temas que pudemos lembrar naquele momento e também das similaridades nada agradáveis principalmente de corrupção na política, Torres como servidor publico deve saber o que diz. Pergunto a Torres sobre o que ele faz no seu trabalho, mas vejo que ele fala pouco desse assunto então não insisto. Mudando de assunto e faço a pergunta que imagino que irei repetir e responder muitas vezes no caminho: Que motivos trás o peregrino ao Caminho? Torres não responde de imediato essa pergunta como as outras que eu havia feito antes. Fico imaginando se tinha falado alguma besteira ou se tinha feito uma pergunta que ele não havia compreendido, mas alguns segundos depois Torres com voz embargada e cheia de dor diz que decidiu fazer o caminho pois a pouco dias havia tido uma grande perda em sua família, seu avó, que era muito próximo havia falecido. Essa pergunta faz com que o ritmo da nossa conversa mude para um tom mais melancólico e nostálgico. Ele começa a contar o quão próximo era do seu avô, do que faziam juntos e do quanto ele havia influenciado na formação do seu caráter. Me fala ainda sobre como sua família tem lidado com essa passagem e como lhe faz bem estar no caminho, o caminho segundo ele, acalma o coração e trás tranqüilidade a alma. Lembro que Torres não é um iniciante no caminho e estou certo de que mais uma vez ele sabe o que diz.

Depois de alguns minutos Torres resolve seguir seu ritmo, nos despedimos com um até logo e ele segue. Me resta a estrada a frente uma meta a bater e uma longa jornada de aprendizagem espiritual e amadurecimento psicológico.

Sinto que a cada novo passo a rampa de acesso aos Pirineus se mostra mais íngreme e a cada pico vencido mais montanhas se revelam em outros novos e mais altos. A pastagem é sempre de um verde incrível e a pesar de cansado o fôlego já não me falta mais, encontro enfim o meu ritmo e pela primeira vez sinto que deixei para trás os passos acelerados e cambaleantes de um bebe aprendendo a andar e agora caminho com mais firmeza e objetividade meu caminho.

Siga-nos 🙂

Autor: Junior de Castro

Viciado em pessoas, ainda em construção e sempre em busca de mais empatia. Cozinheiro, aprendiz de aquarela e com ideias para dividir :)

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