Quase sem água, com sede, no alto dos Pirineus

Quase sem água, cansado, distante do fim e já quase em desespero.

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Verifico no GPS o quanto já caminhei e vejo que ainda falta bastante, mas o que realmente me preocupa é que minha água já esta praticamente no fim. Deve me restar apenas alguns goles. Resolvo fazer uma pausa para comer um pouco e descansar, apesar de me sentir bem, não quero exagerar no primeiro dia, sei que ele é muito duro. Encontro um lugar e me sento para comer um pouco. Minha boca já esta muito seca e não tenho saliva para engolir o que me resta do bocadilho, minhas roupas estão encharcada do suor da subida. não há  nenhuma fonte d’água a vista e começo a me preparar para terminar o dia sem água.

Me questiono de porque não apanhei mais água na fonte de Orisson. Tento me distrair com a paisagem nova com a vegetação e as delicadas flores que adornam toda a montanha e por alguns instantes me esqueço um pouco da falta d’água, mas não demora muito e o pensamento da escassez dela volta a rondar meus pensamentos, ali percebo que não sou um peregrino de meio litro d’água, preciso sempre carregar mais que isso. É incrível como a privação cria uma necessidade que toma conta de todos os pensamentos, mas não há nada a fazer naquele momento a não ser caminhar firme e tentar esvaziar a mente.

Já estou há algum tempo sem encontrar nenhum peregrino, o vento continua frio e úmido e a montanha nevada cresce a minha frente. Sem esperanças de encontrar água em um ponto tão alto começo a pensar que se a sede ficar insuportável colocarei neve na garrafa e beberei. Li certa vez que o limiar da sede começa com a perda de meio por cento do seu peso em água, eu suei tanto na subida que acho que já perdi pelo menos cinco por cento do meu peso e deve ser por isso que me sinto assim tão sedento.

A paisagem continua encantadora e continua a me distrair um pouco, aproveito para tirar algumas fotos e para minha surpresa durante uma dessas fotos registro um som muito característico e universal. Esse som eu poderia reconhecer em qualquer idioma e em qualquer país, era o som de água jorrando, apertei o passo e o som ficava mais intenso a cada passada até que finalmente a vi. Uma fonte cheia d’água, tão cheia que transbordava pela estrada descia a encosta da montanha. Era incrível ver água jorrando em um ponto tão alto, a água era límpida e cristalina, era um sonho se realizando, tratei de me adiantar e colocando as mãos em concha e me deliciei com aquele liquido fresco, límpido, puro e inodoro. E como algo tão sem sabor pode ser tão gostoso, na verdade água tem sabor sim, sabor refrescante e molhado. Aquele foi o momento na minha vida que mais valor dei a um bom gole d’água.

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Pura contemplação e instrospecção

Então só e em ritmo apropriado a subida passa a ser pura contemplação e introspecção.

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Após vencer mais um dos picos sou brindado com uma belíssima cena, alguns metros a minha frente vejo um belo animal se alimentando da pastagem, elegantemente ele ou ela exibe as patas da frente cruzadas enquanto as traseiras lhe dão sustentação e equilíbrio. Seu pelo é caramelo em todo o corpo a exceção das patas onde perto dos cascos a cor fica mais leve e clara e dá a sensação de que está calçado com meias. Seus músculos parecem fortes e estão bem definidos sob a pele e a cada movimento todo seu corpo trabalha como engrenagens em pleno funcionamento. Pelo longo assim eu nunca havia visto, o vento o penteia criando mechas que refletem a luz do sol lhe dando um brilho especial. Aquela cena é digna de uma pintura. Registro o belo e imponente animal com uma belíssima paisagem de plano de fundo em diversos ângulos e em fim o deixo sem incomodar seu sossego.

Subindo lentamente e com tempo e mente livre começo a pensar o que havia me levado ao caminho, o Universo se organizou de ante do meu desejo de fazê-lo, mas eu ainda não estava certo do porque estava ali. Quais eram as perguntas para as quais eu queria respostas e quais eram as inquietações que me moviam? O que Universo tem a me mostrar e me ensinar nesse caminho? Eu ainda não sabia, mas estava certo de que ali eu iria descobrir. Durante o restante da subida rumo aos Pirineus sigo tentando pontuar as duvidas e inquietações que me acompanharão durante a viagem, e consigo com calma chegar a uma lista delas.

– Porque relacionamento longos as vezes tem fim prematuro?

– Praticamos um corporativismo hipócrita com quem amamos?

– Experimentar é desculpa para iniciar projetos e não terminar?

– Porque não escutamos quem fala?

– O que é o amor?

– O que é a morte e porque ela causa dor?

– Sofrer é motivo para endurecer o coração?

– Estou pronto para essa jornada?

– Como manter encantamento com a rotina?

– Quais são meus limites?

As levarei em minha bagagem e se o momento apropriado aparecer sacarei cada uma delas para tratar, se esse momento não surgir ou se outras inquietações aparecerem as tratarei de igual forma, vão para mochila e no momento certo as tiro de lá. Os pensamentos e duvidas vão surgindo e se esvaindo enquanto vou ascendendo cada vez mais o pico da montanha, a pastagem começa a dar lugar a um outro tipo de vegetação, mais rala e dispersa. O vento começa a soprar diferente, sinto que já não mais tem as barreiras das montanhas a minha frente, já estou acima delas e ele sopra intensamente. Alguns passos depois sinto que a subida tornou-se plana e começo a caminhar uma espécie de planície no alto dos Pirineus. O asfalto da lugar a uma estrada de terra batida que serpenteando some no horizonte. A estrada corta fileiras e fileiras de arvores, quase como um bosque, a direita vejo uma das faces da montanha cujo o fim desaparece no céu azulado. O ritmo de caminhada passa a ser de contemplação, é mais tranqüilo e relaxado, tomo tempo para observar flores e os desenhos da silhueta das montanhas a minha frente e ao lado. Imagino ter chegado ao topo dos Pirineus e comparado ao meu desespero do inicio da caminhada posso ate dizer que não foi tão duro assim.

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Subida aos pirineus

Com um amigo em ritmo igual a subida fica mais leve, a paisagem encanta cada vez mais, mas as histórias fazem a emoção aflorar.

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Torres e Boyco conversam com outro peregrino, não estou muito atento a conversa e sendo assim não sei do que estão falando, guardo a parte que restou da experimentação  do bocadilho, compro uma garrafa d’água e estou pronto para sair.

Quando vou a mesa para despedir de Torres e Boyco, Torres resolve me acompanhar, lhe digo logo que não consigo acompanhar seu ritmo e ele resolve mesmo assim me acompanhar de forma mais leve para que possamos conversar. Caminhamos lentamente pela  estreita via asfaltada onde vez-ou-outra um carro passa lentamente por nós, de dentro dos carros motoristas acenam ou gesticulam em cumprimentos calorosos e incentivadores.

O clima continua fresco e agradável e ter companhia para conversar é uma ótima pedida. Conversamos sobre a vida em nossos países as diferenças de economia, cultura, gastronomia e todos os temas que pudemos lembrar naquele momento e também das similaridades nada agradáveis principalmente de corrupção na política, Torres como servidor publico deve saber o que diz. Pergunto a Torres sobre o que ele faz no seu trabalho, mas vejo que ele fala pouco desse assunto então não insisto. Mudando de assunto e faço a pergunta que imagino que irei repetir e responder muitas vezes no caminho: Que motivos trás o peregrino ao Caminho? Torres não responde de imediato essa pergunta como as outras que eu havia feito antes. Fico imaginando se tinha falado alguma besteira ou se tinha feito uma pergunta que ele não havia compreendido, mas alguns segundos depois Torres com voz embargada e cheia de dor diz que decidiu fazer o caminho pois a pouco dias havia tido uma grande perda em sua família, seu avó, que era muito próximo havia falecido. Essa pergunta faz com que o ritmo da nossa conversa mude para um tom mais melancólico e nostálgico. Ele começa a contar o quão próximo era do seu avô, do que faziam juntos e do quanto ele havia influenciado na formação do seu caráter. Me fala ainda sobre como sua família tem lidado com essa passagem e como lhe faz bem estar no caminho, o caminho segundo ele, acalma o coração e trás tranqüilidade a alma. Lembro que Torres não é um iniciante no caminho e estou certo de que mais uma vez ele sabe o que diz.

Depois de alguns minutos Torres resolve seguir seu ritmo, nos despedimos com um até logo e ele segue. Me resta a estrada a frente uma meta a bater e uma longa jornada de aprendizagem espiritual e amadurecimento psicológico.

Sinto que a cada novo passo a rampa de acesso aos Pirineus se mostra mais íngreme e a cada pico vencido mais montanhas se revelam em outros novos e mais altos. A pastagem é sempre de um verde incrível e a pesar de cansado o fôlego já não me falta mais, encontro enfim o meu ritmo e pela primeira vez sinto que deixei para trás os passos acelerados e cambaleantes de um bebe aprendendo a andar e agora caminho com mais firmeza e objetividade meu caminho.

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Albergue de Orisson, meio dos Pirineus

Após muito sacrifício chego ao albergue de Orisson, cheguei a pensar que meu dia terminaria ali, mas depois de comer algo e reencontrar Boyco e Torres, as forças retornaram e pude continuar.

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Cada passo era uma batalha vencida e depois de algumas poucas horas de luta estou exausto e a procura de um lugar para descansar e meu desejo é atendido quase que de imediato e logo ali a minha frente está o albergue e restaurante Orisson. Avisto Boyco e Torres sentados, os dois expressavam tranqüilidade e serenidade, além é claro de disposição. Exatamente o oposto de como me sentia ali, mas ver aquele lugar e os dois me deu esperanças, sabia que uma bebida quente naquele dia frio e um pouco de comida me daria conforto e energia.

Peço uma xícara do que estão bebendo e posso jurar que aquela xícara de leite quente veio de algum tipo de gado sagrado que vivia no alto dos Pirineus, e com toda certeza era cuidado por monges tibetanos importados exclusivamente para isso.

A bebida é revigorante, e me sento quase tão bem quanto quando sai de Saint-Jean. Observo a paisagem que emoldura aquele lugar, ele fica em um platô e a rodovia o separa em duas partes, à direita o albergue antigo e muito bem cuidado. Paredes feitas de pedra e madeira com dois pavimentos. Logo a sua frente uma grande arvore sem folhas e muito majestosa. Do lado direito daquela arvore uma fonte que jorra água fresca, pra não dizer gelada, serve os peregrinos que por ali passam. As raízes da arvore brincam na linha tênue que separa o fim daquele platô com o inicio de um profundo e extenso vale que segue longe no horizonte até alcançar uma fileira de montanhas que se sobrepõem uma após a outra. As montanhas empilhadas alcançam um céu azul iluminado e salpicado por nuvens que formam formas com as quais se pode brincar.

Junto com o leite pedi também um bocadilho de presunto. Ainda não tenho fome, mas sei que necessito de comida para logo mais. O pão me parece muito fresco tem uma crosta crocante e seu interior tem aparência macia. O tradicional e mundialmente famoso presunto curado espanhol recheia aquela obra da confeitaria e sua gordura derrete no pão ao menor sinal de calor deixando seu miolo sedoso e com sabor intenso. Depois de algum tempo apreciando o pão não resisto e lhe dou uma mordida por curiosidade, e depois mais uma por confirmação e uma outra para ter certeza e uma mais em contra-prova, e sim, mesmo sem fome aquilo era fantástico.

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Não devia ter sido negligente com o treino

Já no inicio da subida começo a questionar minha capacidade de bater a meta. Não devia ter sido negligente com meu treino.

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Fui vendo os dois sumindo na sinuosa estrada e continuei a subir em um ritmo mais leve e tranqüilo, e agora sim, me via em um ritmo aceitável e que me permitiria chegar ao cume dos Pirineus. Caminhando mais devagar eu pude observar como a cada passo aquela paisagem mudava e me mostrava um mundo novo, tive consciência que cada passo rumo a Santiago me presentearia com uma visão completamente nova de tudo, uma experiência nova para os cinco sentidos e para a alma. A paisagem me deslumbra e vagarosamente sigo subindo. Eu sou acompanhado de perto por uma senhora de idade bastante avançada, eu a observo no retrovisor, ao menos por enquanto, e um casal a minha frente também a observa, imagino que são da mesma família. Essa visão me dá forças para continuar, aquela senhora me mostra que nenhum desafio seria ou será grande demais, necessito apenas acertar o ritmo que posso suportar e assim poderei escalar qualquer cume. A caminhada do dia de hoje não é longa é apenas muito íngreme, o que me custará tempo, mas tempo não é problema eu ainda tenho muito, acordei bem cedo e tenho um longo dia pela frente.

O projeto Caminho de Santiago para a minha atual forma física é bastante audacioso. A idéia é chegar a Santiago saindo de Saint-Jean em vinte e sete dias, eu tenho algumas etapas longas de pouco mais de quarenta quilômetros em um dia e tenho etapas mais razoáveis, mas em media eu caminharia algo em torno de trinta quilômetros todos os dias. Me preparei fazendo curtas caminhadas no trajeto casa trabalho durante um ano. Nas costas carregava uma mochila com o peso aproximado que estou levando nesta jornada, e é claro que agora começo a pagar o preço por esse preparo ludibrioso que eu mesmo me dei.

Já nesses primeiros quilômetros comecei a questionar a minha capacidade de bater essa meta e terminar o caminho, minha mente nessa hora é uma verdadeira batalha entre o incentivo e a descrença em executar um projeto de dois anos de planejamento.

Eu não posso desistir no primeiro dia. No trabalho havia um bolão entre meus amigos com estimativas de qual etapa eu pararia, e o mais incrível foi descobrir que tinham apostas para o primeiro dia, mas vamos lá, cabeça erguida ritmo tranqüilo e rumo ao topo.

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Caminho de Santigo, enfim o primeiro passo

Enfim como um recém-nascido, dou meus primeiros passos no Caminho de Santiago. Saio da cidade de Saint-Jean-Pied-de-Port rumo aos Pirineus, tecnicamente o dia mais difícil da caminhada, quase 1000 metros de inclinação distribuídos ao longo do dia.

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Criança nunca caminha,
curiosidade a guia,
e tem pressa.

Como recém-nascido levanto pela manhã para iniciar a caminhada, acordo com uma deliciosa preguiça sob varias camadas de cobertas na cama macia e aconchegante, saio dela quase que prontamente, ao segundo toque do despertador. Vou para o banho, tomo uma ducha quente que me deixa mais desperto, a mochila já esta pronta e a roupa para o primeiro dia também. Mochila nas costas desço escadaria alisando o corrimão. Já no restaurante o café-da-manhã me espera, o silencio impera entre todos que ali estão, imagino que todos estejam concentrados nas próprias expectativas do caminho, mas nem sei se todos irão a ele. Tomo vagarosamente o café até que o relógio mostre a hora marcado para encontrar Torres e Boyco a porta, havia pego frutas e um corassant do café para levar a eles, visto que não sabia se tinha café no albergue, os dois já tinham se alimentado, mas não recusaram a oferta.

Ainda um pouco desorientados em nossos primeiros passos sem equilíbrio seguimos pela cidade a procura das setas amarelas e não demorou muito a encontrar as primeiras, e logo que as encontramos avistamos outros peregrinos. Ver outros peregrinos me dava a sensação de estar no caminho certo e quanto mais caminhávamos mais peregrinos avistávamos. A saída de Saint-Jean é a subida de uma ladeira estreita, cercada por casas, onde alguns carros passavam vez ou outra.

O dia ainda estava por amanhecer, as luzes dos postes iluminavam o caminho e a manhã úmida e agradável, trás frio ao corpo recém acordado. As montanhas ao redor escondem o Sol que luta para rompê-las e aquecer a terra e durante este embate entre o Sol e as montanhas seguimos a acende-las lentamente e aos poucos vemos espaços surgindo entre as casas e não demora até vê-las se esvaírem por completo e  deixarem de fazer parte da paisagem.

O caminho agora é em meio a propriedades rurais que somem no horizonte cercado pelas mesmas montanhas que insistem em segurar o Sol. A pastagem é de verde intenso e alguns animais se alimentam ali. A subida é embalada pelo bate-papo sempre dominado por Boyco e suas muitas historias, a caminhada é cada vez mais ascendente e meu fôlego já não é o mesmo de quando me levantei, os primeiros sinais de cansaço começaram a aparecer, mas sigo firme e em ritmo com meus amigos, o ritmo da caminhada é firme e compassado e de alguma forma sinto que não poderei muito mais agüentar aquele compasso. Mal esse sentimento chega e percebo que preciso parar para um descanso, o ritmo forte está além do que meu corpo permite e já estou além do meu limite. Faço uma pequena pausa, tomo ar, sinto a brisa fria da manhã sobrar meu corpo já bastante suado e logo continuo até de forma mais acelerada para alcança-los; poucos minutos depois já estou na mesma exaustão. Faço mias uma breve pausa e tento outra vez seguir no ritmo deles, mas logo vejo que é inútil insistir e entendo que seria hora de quebrar pela primeira vez o orgulho no caminho e dizer aos meninos que não posso segui-los, que continuarei logo atrás. E foi o que fiz.

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Diga-me onde dói e eu te direi por quê

Já na hospedaria vamos relaxar um pouco, conhecer os novos peregrinos amigos na noite anterior a grande caminhada rumo a Santiago e a auto-descoberta.

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Michael Odoul faz uma alusão em um de seus livros que o inconsciente é como o passageiro de uma carruagem, uma carruagem conduzida por um cocheiro. A carruagem é a representação do nosso corpo físico manifestado neste plano espiritual. O cocheiro é a nossa consciência, nossas vontades, atitudes e o caráter e essa tríade de livre arbítrio nos faz mover por este plano, mas esta mesma tríade que nos move pode nos fazer desviar do caminho de equilíbrio que nos foi planejado para essa vida, e quando isso acontece cabe ao nosso passageiro, o inconsciente que nos rege nessa missão, nos avisar do desvio. Nosso passageiro tem a expectativa de que retornemos ao caminho do meio, porém muitas vezes nos vemos tão entretidos em nossas vontades que paramos de ouvi-lo. Neste momento nosso passageiro se manifesta de forma mais incisiva, e ele o faz através do nosso corpo, o corpo físico é a representação da carruagem conduzida pelo consciente e guiada pelo inconsciente, essa comunicação se da através de sonhos, sensações sensoriais e sinestésicas. Se ainda muito entretidos continuarmos a ignorá-lo ele tentara nos persuadir com manifestações físicas, nos levando a dormências, formigamentos, dores ou qualquer tipo de desequilíbrio corporal. E se, ainda assim nós continuarmos o ignorá-lo ele nos fará parar; como? Experimente.

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Oscar Wild me embala na ultima noite antes da jornada

Já na hospedaria vamos relaxar um pouco, conhecer os novos peregrinos amigos na noite anterior a grande caminhada rumo a Santiago e a auto-descoberta.

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De volta à pensão, subo outra vez as escadas em  carpete azul escuro e macio e seu corrimão em madeira é extremamente liso pelo uso. No primeiro andar uma porta a direita dá acesso a uma confortável sala de leitura, com poltronas macias e sóbrias. Um abajur alto ilumina cada uma das poltronas. Uma escrivaninha e uma estante com livros completam o ambiente a iluminação deixa tudo muito agradável. É um cantinho bastante convidativo para iniciar a leitura que logo será interrompida por uma deliciosa siesta.

O quarto fica no terceiro andar e é fácil notar que tudo ali foi arrumado com muito cuidado para deixá-lo como um lar. Duas camas muito bem arrumadas compõem o ambiente com uma poltrona irmã das da sala de leitura, ela é forrada com um tecido macio e que reage ao toque se penteia e muda de cor. A frente da poltrona uma escrivaninha em madeira sem muitos detalhes, quase crua. Atrás desta duas janelas retangulares com moldura em madeira e vidros transparentes, o vidro é marcado por ondulações do tempo e transparece a rua principal de Saint-Jean e o céu ainda  azul, mesmo com o adiantado da hora e a lua começa a aparecer. As duas camas são gostosas e parecem idênticas com suas colchas iguais, ambas possuem as mesmas flores coloridas desenhadas. Sob a colcha varias camadas de lençóis e outros tecidos aos quais não sei dar nomes. Nas paredes do quarto sobre cada uma das camas um quadro com frases de Volter e de Oscar wild, Oscar Wilde fala de como é sedutora a tentação, “Posso resistir a tudo, menos à tentação.”, essa foi à cama que escolhi para minha primeira noite, o sono veio leve e tranqüilo.

O sono leve e tranqüilo era o prelúdio do meu nascimento no caminho, como um feto que tem a carne limpa e desprovida de consciência de experiências anteriores e do real objetivo de sua missão, eu nascia, nascia sabendo que meu guia nessa jornada era meu inconsciente, e devo ouvi-lo com sabedoria.

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Uma cerveja com os peregrinos amigos.

Já na hospedaria vamos relaxar um pouco, conhecer os novos peregrinos amigos na noite anterior a grande caminhada rumo a Santiago e a auto-descoberta.

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Uma cerveja já espera por mim a mesa. Agora devidamente instalado estou tranqüilo, estava preocupado pois não sabia se a minha reserva na pensão ainda estaria ativa e se não tivesse mais reserva será que teria albergue para passar a noite? Outra duvida que tinha era se teria de vir sozinho a Saint-Jean, isso me preocupava, pois seria bastante oneroso, mas enfim, tudo saiu como deveria e posso brindar ao sucesso da primeira etapa.

Passadas as tensões começo a relaxar e prestar mais atenção aos meus novos amigos. Ainda me impressiona o tamanho da mochila de Boyco, mas talvez ele esteja certo em trazer um mochila bem compacta, mas nem saco de dormir ele tem, ao menos acho que não. Ele tem uma fala mansa e conta que resolveu fazer o caminho a pouco tempo, imagino que por este motivo tenha uma mochila tão pequena, ele também diz que gosta muito de caminhar. Torres por sua vez é bombeiro em Marselha e não é a sua primeira vez no caminho. Torres tem aparência jovem e sempre carrega um sorriso no rosto e tem uma energia boa. A cerveja chega ao fim e é hora de sairmos para conhecer a pequena cidade. A cada passo ela fica mais charmosa e aconchegante, uma sensação de relaxamento me invade em meio a ruas adornadas por flores, arvores, arbustos e trepadeiras bem diferentes das que conheço. A arquitetura é detalhista e de muito bom gosto. Caminhamos um pouco mais e com alegria encontramos um restaurante onde na fachada vejo uma bandeira em verde e amarelo e convido os meninos a experimentarmos o lugar, eles aprovam a idéia sem restrição.

Pergunto da bandeira estendida a frente do restaurante e ele nos informa que é de um dos atendentes, mas que ele estaria de folga naquele dia. O lugar é agradável e pedimos o nosso primeiro menu do peregrino. O menu do peregrino é oferecido ao longo de todo o caminho em inúmeros restaurantes, inclusive os das grandes cidades, ele é composto por uma entrada, prato principal e sobremesa, sempre acompanhados de uma cesta de pães, água e ou vinho e tudo isso a um custo médio de dez euros. Os pedidos que fizemos a pouco não demoraram a chegar e logo estamos os três estufados de tanto comer e beber. Hora de me despedir e descansar para a jornada de amanhã.

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Passeio por Saint-Jean-Pied-de-Port

Já em Saint-Jean-Pied-de-Port é hora de encontrar a hospedaria e relaxar antes do inicio da grande caminhada rumo a Santiago e a auto-descoberta.

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Conquistei minha credencial em meu País, com um grupo de peregrinos que é conduzido pelo Sr. Manoel, mas aproveitei para na oficina pegar mais uma credencial para um grande amigo que deveria estar no caminho comigo, mas não pode. O Universo quis que eu fizesse o caminho em separado dele e levarei essa credencial extra comigo e tentarei selá-la em todos os pontos onde eu me hospedar, foi à forma que encontrei de fazermos o caminho de algum jeito juntos. Recebo também além da credencial e os selos alguns papeis com orientações sobre direções, distancia e altitude de cada etapa, e uma lista de cidades e povoados que encontraria ao longo de cada etapa com informações a respeito da sua infraestrutura de bares, restaurantes, caixas eletrônicos, albergues e algumas outras. Por estar sozinho optei por trazer para minha segurança um aparelho de GPS com todo o caminho mapeado, logo tomei aquelas informações como desnecessárias, mas as guardei na mochila.

Torres e Boyco após selarem suas credenciais me encontram do lado de fora da oficina. Eu tenho reserva em uma pensão próxima da oficina e eles irão ficar no albergue ali em frente. Quando chegamos ao albergue ele já está lotado, mas nos informam que há um outro do outro lado da rua. Seguimos até este e eles se acomodaram. Eu os convido para irmos a pensão para poder comer algo antes de dormir. Será oportuno também brindar o inicio do nosso caminho.

Saímos animados pela pequena e charmosa Saint-Jean, vamos conversando de forma animada e eu na expectativa de que a cidade seja pequena o suficiente para que eu tropece com a pensão sem dificuldades. Claro que isso não acontece, não é tão simples assim encontrá-la, resolvo recorrer ao mapa no celular, claro que isso também não funciona, vamos então ao mais tradicional e antigo método de se encontrar algum lugar, perguntar; vejo logo um senhor entrando em sua casa e resolvo indagá-lo a respeito da pensão e para minha sorte ele sabia onde era e me informa que ela ficava na rua dos fundos da sua residência. Contornamos a quadra e chegamos ao restaurante-bar-residência-e-pensão Itzalpea, o lugar era super charmoso, como tudo naquela cidade. Era aconchegante e com um ar de simplicidade, mas com um toque elegante. Sou atendido por uma senhora e sua filha, imagino que sejam mãe e filha, pois elas se parecem, partilham um mesmo sorriso, elas aparentemente me cumprimentam, mas de suas bocas saem muitas palavras as quais eu não podia entender, mesmo assim continuavam sendo gostosas de se ouvir, tinham um tom sereno. Não demora muito e a filha me aponta as escadas me convidando a acompanhá-la. Subo logo atrás dela e descubro que seu nome é Marie. Marie veste uma saia de grandes bolas brancas em um fundo negro, o dorso do seu corpo é coberto por uma camisa branca de tecido leve e cheia de movimento, seus cabelos são longos e tão negros quanto à noite, os seus cachos alvoroçados contrastam com sua pele branca de onde saltam olhos brilhantes e profundos com pupilas dilatadas sob a pouca luz. Ela se move com maestria sobre os degraus da escada encarpetada, quase flutuando em cada um deles. ofegante eu sigo logo atrás hipnotizado pelos seus movimentos. Ao chegarmos ao quarto Marie me entrega as chaves, me viro para ver o quarto e quando olho novamente ela já desapareceu. O quarto tem uma energia boa, porém meus dois novos amigos estavam esperando, jogo a mochila na cama e desço para brindar com eles o sucesso do inicio da nossa jornada.


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imagem: raileurope

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