O olhar sob o outro

Tentamos e cremos que possamos fazer mais de uma atividade por vez, na verdade, em geral cremos poder fazer inúmeras com excelência simultaneamente. Não é fácil admitir quão medíocres somos ao não nos dar por inteiro a algo.

 

O oriental demonstra claramente sua surpresa ao ver quão generalista e multitarefa é o ocidental. Nos tornamos generalistas e consequentemente medianos, inclusive em estar inteiro diante do outro. Não estamos mais verdadeiramente imersos no momento e com isso ignoramos que o presente é o único lugar onde não existe a ansiedade. Esta última frase não é minha, mas é intensa, logo gostaria de repeti-la aqui. O presente é o único lugar onde não existe ansiedade.

 

A multitarefa nos impõe o malabarismo de tentar estar presente em diversas linhas temporais e em assuntos distintos. Esse exercício faz com que nos comportemos assim o tempo todo, tornando inclusive as relações multitarefa. Esta sendo assim, limita nossa capacidade de realmente enxergar o outro. E quando não enxergamos o outro perdemos detalhes importantes e com isso a oportunidade de trazer mais felicidade a vida daqueles que nos cercam. Sabe aquela sensação de não saber o que dar de presente ao outro? Ela vem da falta de presença, do não estar inteiro e então não conhecer quem nos cerca.

 

A alguns anos fiz o Caminho de Santiago de Compostela. Nele tive a oportunidade de durante 30 dias caminhar da fronteira da Espanha com a França até o mar, exclusivamente caminhar. Cada noite dormia em uma cidade diferente após 8 horas de caminhada. Neste exercício tinha como único companheiro a mim mesmo. Foi um excelente exercício de se estar presente no momento. Claro que precisei me desintoxicar da habitual multitarefa que praticava, mas após alguns dias percebi que o que realmente interessava era estar ali, no presente. Isto fez com que a ansiedade de terminar o dia em uma cidade específica, em um albergue programado com um cronograma predefinido se esvaísse, dando espaço ao que realmente importava; o agora.

 

Uma vez descoberto o presente pude viver por inteiro cada momento, cada refeição, cada conversa com um outro peregrino desconhecido, cada música ouvida. Músicas nas quais percebi notas nunca ouvidas anteriormente, mesmo sendo músicas que ouvia diariamente. Cada relação e interação foram vividas por inteiro, elevando o patamar de entrega e satisfação a um nível que até então não conhecia.  Tento ainda hoje, após passados 5 anos, manter o foco no presente e em abandonar a multitarefa. Não é fácil, pois a vida moderna tende a nos cobrar essa superficialidade em tudo. Mas deixo aqui o convite a tentativa de se escolher um momento do seu dia para estar inteiro em uma única atividade e após isso, em um segundo exercício, observar como foi essa experimentação.

 

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Junior de Castro

Viciado em pessoas, ainda em construção e sempre em busca de mais empatia. Cozinheiro, aprendiz de aquarela e com ideias para dividir :)

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