Percebi que nunca ter jogado futebol pode ter me tornado mais cooperativo

Em geral temos reações naturais e automáticas a situações não vividas anteriormente, quando digo natural, me refiro a não racionalização da reação. Vamos a situação que me fez partir para esta reflexão. A alguns dias, nosso compatriota Neymar Jr se envolveu em uma polêmica e foi vaiado pela torcida de seu clube, o Paris Saint-Germain (PSG). A atitude de Neymar foi natural e não me parece maldosa ou ofensiva, mas foi o suficiente para uma enxurrada de vaias e críticas. Durante uma partida, na qual ele defendia de forma primorosa a camisa de seu time, ele já havia feito três gols, e o marcador apontava 7 x 0 em favor do PSG, quando um pênalti foi marcado para aquele time. Neymar, como batedor oficial do clube, teve sua reação natural, foi para marca do pênalti e após autorizado converteu a penalidade em gol. O gol em questão só consolidou a vitória esmagadora de 8 x 0 do PSG sobre o DIJON. Mas como um jogador que faz quatro gols em uma partida onde houveram oito pode ser vaiado?

Na minha reflexão, faltou em Neymar uma atitude cooperativa. Neymar ficou no âmbito exclusivo do competitivo. Saliento que esta não é uma crítica ao Neymar e sua atitude e sim uma reflexão em como nos comportamos em reações naturais. Vamos ao ponto onde creio que ele poderia ter sido cooperativo. Neste jogo, entre os outros dez jogadores em campo, que compunham o time de Neymar, havia um que se destacava. Se destacava, pois, aquela era uma partida que poderia ser um grande marco em sua carreira. Falo de Cavani. Cavani poderia naquela partida bater o record histórico de gols pelo PSG. Ele foi quem sofreu o pênalti em questão e se convertesse a cobrança, faria seu 157° com a camisa do time. Sendo considerado assim, o maior goleador da história do clube. Aparentemente sem racionalizar a situação, e em uma reação natural, Neymar fez o seu trabalho. Bateu o penalti e o converteu gol.

Não sou boleiro e é fácil analisar o comportamento de alguém, e se imaginar no lugar deste, depois que tudo aconteceu, mas tenho indícios e posso lembrar de situações semelhantes nas quais minhas atitudes foram diferente da de Neymar. E acredito ser este o grande poder da empatia. Quando se pratica a empatia diariamente estas atitudes naturais, ou não racionalizadas, tendem a ter um olhar para o bem estar do todo. Neymar tecnicamente demonstra ser o melhor jogador do PSG, porém para a torcida a julgar pelas vaias, era mais importante naquele momento deixar a técnica abaixo da empatia. A consagração de um grande marco a um jogador querido pelo retrospecto construído no clube era mais importante que o incremento de placar em um resultado já estrondoso. Neymar tem apenas 24 anos e tem como bagagem de vida a competição no mais alto nível, não seria nada empático julgar o comportamento do jovem atleta, porém este nos serve de reflexão para que tipo de bagagens temos carregado e como estas influenciam nossas atitudes naturais. Como estão suas bagagens por ai?

Quando olho para as minhas, vejo que elas são as que eu gosto de carregar, mas estão em constante renovação. Vivi a aplicação de uma destas bagagens a pouco e a compartilho com vocês: trabalho a quase 10 anos em uma Instituição cooperativista, e a pouco fiz um treinamento sobre Negociação e Administração de Conflitos. Após ¾ do curso já transcorrido, ou seja, com uma bagagem de negociação e administração de conflitos já construída, fizemos uma dinâmica na qual os 10 participantes do curso foram divididos em 5 duplas. Cada dupla recebeu um envelope com alguns itens e uma tarefa: entregar uma série de itens artesanais, venceria a dupla que primeiro entregasse todos os itens perfeitamente construídos. Porém nenhum envelope tinha todo o material suficiente para completar a tarefa. O objetivo da dinâmica era ver nossa capacidade de negociar a troca dos itens para concluir a tarefa. Incitados pela competição, agregava ao objetivo da dinâmica a nossa capacidade de administrar conflitos sob a pressão de uma competição. No entanto, mesmo com a bagagem de negociação e administração de conflito passada pela facilitadora, nossa bagagem cooperativista falou mais alto e ao invés de competirmos para ver qual dupla entregaria a tarefa primeiro os 10 participantes se juntaram e entregaram JUNTOS um único kit com todos os itens solicitados. Entendemos que desta forma atenderíamos o pedido do cliente, visto que apenas a primeira entrega correta seria premiada, logo não seria necessário uma competição, a cooperação era mais vantajosa para todos.

O senso de competição nos move e nos promove, mas precisamos sempre fazer uma reflexão a respeito de quais competições merecem nosso envolvimento.

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