Pura contemplação e instrospecção

Então só e em ritmo apropriado a subida passa a ser pura contemplação e introspecção.

Não se esqueçam de sugerirem, criticarem e participarem da construção deste livro que representa cada peregrino em suas jornadas pessoais.


Após vencer mais um dos picos sou brindado com uma belíssima cena, alguns metros a minha frente vejo um belo animal se alimentando da pastagem, elegantemente ele ou ela exibe as patas da frente cruzadas enquanto as traseiras lhe dão sustentação e equilíbrio. Seu pelo é caramelo em todo o corpo a exceção das patas onde perto dos cascos a cor fica mais leve e clara e dá a sensação de que está calçado com meias. Seus músculos parecem fortes e estão bem definidos sob a pele e a cada movimento todo seu corpo trabalha como engrenagens em pleno funcionamento. Pelo longo assim eu nunca havia visto, o vento o penteia criando mechas que refletem a luz do sol lhe dando um brilho especial. Aquela cena é digna de uma pintura. Registro o belo e imponente animal com uma belíssima paisagem de plano de fundo em diversos ângulos e em fim o deixo sem incomodar seu sossego.

Subindo lentamente e com tempo e mente livre começo a pensar o que havia me levado ao caminho, o Universo se organizou de ante do meu desejo de fazê-lo, mas eu ainda não estava certo do porque estava ali. Quais eram as perguntas para as quais eu queria respostas e quais eram as inquietações que me moviam? O que Universo tem a me mostrar e me ensinar nesse caminho? Eu ainda não sabia, mas estava certo de que ali eu iria descobrir. Durante o restante da subida rumo aos Pirineus sigo tentando pontuar as duvidas e inquietações que me acompanharão durante a viagem, e consigo com calma chegar a uma lista delas.

– Porque relacionamento longos as vezes tem fim prematuro?

– Praticamos um corporativismo hipócrita com quem amamos?

– Experimentar é desculpa para iniciar projetos e não terminar?

– Porque não escutamos quem fala?

– O que é o amor?

– O que é a morte e porque ela causa dor?

– Sofrer é motivo para endurecer o coração?

– Estou pronto para essa jornada?

– Como manter encantamento com a rotina?

– Quais são meus limites?

As levarei em minha bagagem e se o momento apropriado aparecer sacarei cada uma delas para tratar, se esse momento não surgir ou se outras inquietações aparecerem as tratarei de igual forma, vão para mochila e no momento certo as tiro de lá. Os pensamentos e duvidas vão surgindo e se esvaindo enquanto vou ascendendo cada vez mais o pico da montanha, a pastagem começa a dar lugar a um outro tipo de vegetação, mais rala e dispersa. O vento começa a soprar diferente, sinto que já não mais tem as barreiras das montanhas a minha frente, já estou acima delas e ele sopra intensamente. Alguns passos depois sinto que a subida tornou-se plana e começo a caminhar uma espécie de planície no alto dos Pirineus. O asfalto da lugar a uma estrada de terra batida que serpenteando some no horizonte. A estrada corta fileiras e fileiras de arvores, quase como um bosque, a direita vejo uma das faces da montanha cujo o fim desaparece no céu azulado. O ritmo de caminhada passa a ser de contemplação, é mais tranqüilo e relaxado, tomo tempo para observar flores e os desenhos da silhueta das montanhas a minha frente e ao lado. Imagino ter chegado ao topo dos Pirineus e comparado ao meu desespero do inicio da caminhada posso ate dizer que não foi tão duro assim.

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Não devia ter sido negligente com o treino

Já no inicio da subida começo a questionar minha capacidade de bater a meta. Não devia ter sido negligente com meu treino.

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Fui vendo os dois sumindo na sinuosa estrada e continuei a subir em um ritmo mais leve e tranqüilo, e agora sim, me via em um ritmo aceitável e que me permitiria chegar ao cume dos Pirineus. Caminhando mais devagar eu pude observar como a cada passo aquela paisagem mudava e me mostrava um mundo novo, tive consciência que cada passo rumo a Santiago me presentearia com uma visão completamente nova de tudo, uma experiência nova para os cinco sentidos e para a alma. A paisagem me deslumbra e vagarosamente sigo subindo. Eu sou acompanhado de perto por uma senhora de idade bastante avançada, eu a observo no retrovisor, ao menos por enquanto, e um casal a minha frente também a observa, imagino que são da mesma família. Essa visão me dá forças para continuar, aquela senhora me mostra que nenhum desafio seria ou será grande demais, necessito apenas acertar o ritmo que posso suportar e assim poderei escalar qualquer cume. A caminhada do dia de hoje não é longa é apenas muito íngreme, o que me custará tempo, mas tempo não é problema eu ainda tenho muito, acordei bem cedo e tenho um longo dia pela frente.

O projeto Caminho de Santiago para a minha atual forma física é bastante audacioso. A idéia é chegar a Santiago saindo de Saint-Jean em vinte e sete dias, eu tenho algumas etapas longas de pouco mais de quarenta quilômetros em um dia e tenho etapas mais razoáveis, mas em media eu caminharia algo em torno de trinta quilômetros todos os dias. Me preparei fazendo curtas caminhadas no trajeto casa trabalho durante um ano. Nas costas carregava uma mochila com o peso aproximado que estou levando nesta jornada, e é claro que agora começo a pagar o preço por esse preparo ludibrioso que eu mesmo me dei.

Já nesses primeiros quilômetros comecei a questionar a minha capacidade de bater essa meta e terminar o caminho, minha mente nessa hora é uma verdadeira batalha entre o incentivo e a descrença em executar um projeto de dois anos de planejamento.

Eu não posso desistir no primeiro dia. No trabalho havia um bolão entre meus amigos com estimativas de qual etapa eu pararia, e o mais incrível foi descobrir que tinham apostas para o primeiro dia, mas vamos lá, cabeça erguida ritmo tranqüilo e rumo ao topo.

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Caminho de Santigo, enfim o primeiro passo

Enfim como um recém-nascido, dou meus primeiros passos no Caminho de Santiago. Saio da cidade de Saint-Jean-Pied-de-Port rumo aos Pirineus, tecnicamente o dia mais difícil da caminhada, quase 1000 metros de inclinação distribuídos ao longo do dia.

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Criança nunca caminha,
curiosidade a guia,
e tem pressa.

Como recém-nascido levanto pela manhã para iniciar a caminhada, acordo com uma deliciosa preguiça sob varias camadas de cobertas na cama macia e aconchegante, saio dela quase que prontamente, ao segundo toque do despertador. Vou para o banho, tomo uma ducha quente que me deixa mais desperto, a mochila já esta pronta e a roupa para o primeiro dia também. Mochila nas costas desço escadaria alisando o corrimão. Já no restaurante o café-da-manhã me espera, o silencio impera entre todos que ali estão, imagino que todos estejam concentrados nas próprias expectativas do caminho, mas nem sei se todos irão a ele. Tomo vagarosamente o café até que o relógio mostre a hora marcado para encontrar Torres e Boyco a porta, havia pego frutas e um corassant do café para levar a eles, visto que não sabia se tinha café no albergue, os dois já tinham se alimentado, mas não recusaram a oferta.

Ainda um pouco desorientados em nossos primeiros passos sem equilíbrio seguimos pela cidade a procura das setas amarelas e não demorou muito a encontrar as primeiras, e logo que as encontramos avistamos outros peregrinos. Ver outros peregrinos me dava a sensação de estar no caminho certo e quanto mais caminhávamos mais peregrinos avistávamos. A saída de Saint-Jean é a subida de uma ladeira estreita, cercada por casas, onde alguns carros passavam vez ou outra.

O dia ainda estava por amanhecer, as luzes dos postes iluminavam o caminho e a manhã úmida e agradável, trás frio ao corpo recém acordado. As montanhas ao redor escondem o Sol que luta para rompê-las e aquecer a terra e durante este embate entre o Sol e as montanhas seguimos a acende-las lentamente e aos poucos vemos espaços surgindo entre as casas e não demora até vê-las se esvaírem por completo e  deixarem de fazer parte da paisagem.

O caminho agora é em meio a propriedades rurais que somem no horizonte cercado pelas mesmas montanhas que insistem em segurar o Sol. A pastagem é de verde intenso e alguns animais se alimentam ali. A subida é embalada pelo bate-papo sempre dominado por Boyco e suas muitas historias, a caminhada é cada vez mais ascendente e meu fôlego já não é o mesmo de quando me levantei, os primeiros sinais de cansaço começaram a aparecer, mas sigo firme e em ritmo com meus amigos, o ritmo da caminhada é firme e compassado e de alguma forma sinto que não poderei muito mais agüentar aquele compasso. Mal esse sentimento chega e percebo que preciso parar para um descanso, o ritmo forte está além do que meu corpo permite e já estou além do meu limite. Faço uma pequena pausa, tomo ar, sinto a brisa fria da manhã sobrar meu corpo já bastante suado e logo continuo até de forma mais acelerada para alcança-los; poucos minutos depois já estou na mesma exaustão. Faço mias uma breve pausa e tento outra vez seguir no ritmo deles, mas logo vejo que é inútil insistir e entendo que seria hora de quebrar pela primeira vez o orgulho no caminho e dizer aos meninos que não posso segui-los, que continuarei logo atrás. E foi o que fiz.

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Diga-me onde dói e eu te direi por quê

Já na hospedaria vamos relaxar um pouco, conhecer os novos peregrinos amigos na noite anterior a grande caminhada rumo a Santiago e a auto-descoberta.

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Michael Odoul faz uma alusão em um de seus livros que o inconsciente é como o passageiro de uma carruagem, uma carruagem conduzida por um cocheiro. A carruagem é a representação do nosso corpo físico manifestado neste plano espiritual. O cocheiro é a nossa consciência, nossas vontades, atitudes e o caráter e essa tríade de livre arbítrio nos faz mover por este plano, mas esta mesma tríade que nos move pode nos fazer desviar do caminho de equilíbrio que nos foi planejado para essa vida, e quando isso acontece cabe ao nosso passageiro, o inconsciente que nos rege nessa missão, nos avisar do desvio. Nosso passageiro tem a expectativa de que retornemos ao caminho do meio, porém muitas vezes nos vemos tão entretidos em nossas vontades que paramos de ouvi-lo. Neste momento nosso passageiro se manifesta de forma mais incisiva, e ele o faz através do nosso corpo, o corpo físico é a representação da carruagem conduzida pelo consciente e guiada pelo inconsciente, essa comunicação se da através de sonhos, sensações sensoriais e sinestésicas. Se ainda muito entretidos continuarmos a ignorá-lo ele tentara nos persuadir com manifestações físicas, nos levando a dormências, formigamentos, dores ou qualquer tipo de desequilíbrio corporal. E se, ainda assim nós continuarmos o ignorá-lo ele nos fará parar; como? Experimente.

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Não existe renovação sem desapego!

Não existe renovação sem desapego, isto é uma grande verdade que só aprendemos quando crescemos e percebemos na prática o quanto é essencial renovar para abrir novos caminhos, e praticar o desapego é um grande exercício para começarmos a nossa renovação.

Mexendo em um armário, a procura de um par de sapatos, descobri cerca de seis pares de sapatos que há uns bons 3 anos não usava, mas me questionei: “Por que já não me desapeguei deles?” E a resposta, sinceramente, não encontrei, mas mesmo depois de tanto tempo guardando os sapatos que não uso mais, resolvi retirá-los do armário e doá-los para quem realmente precisa.

O importante é agir para que a renovação comece e isto só depende de você!

Apenas dei um exemplo de alguns pares de sapatos, mas se pararmos uns minutos para responder à uma pergunta, podemos ficar perplexos com a nossa resposta, e compreender um pouco o motivo pelo qual estamos sempre no mesmo lugar e nada parece mudar na nossa vida. Pare um minuto e se pergunte: Há quanto tempo eu não separo roupas, sapatos e casados para doação? Confesso que quando me fiz esta pergunta, percebi que fazia um tempo que não me preocupava em desapegar de coisas que já tiveram o seu tempo na minha vida e resolvi começar.

Desapegar, e neste caso estamos falando de coisas materiais, não é uma tarefa fácil. Quem nunca se apegou à uma blusa que já está bem surrada? A um conjunto de pratos de 20 anos atrás? A uma sandália linda? A um carro que já está pedindo outro dono? Sim, todos nós vivemos apegados à coisas e principalmente às “nossas” coisas e não que esteja errado, temos sim que cuidar e dar muito valor as coisas que compramos com muito sacrifício, ou de um presente que recebemos que tem um valor memorável para nós, mas o que não podemos fazer é nos deixar levar pelo excesso de apego. É preciso sim, começar a nos desapegar para que possamos sim renovar as coisas materiais e consequentemente toda a nossa vida, que precisa de tempos em tempos de uma “limpeza”.

Desapegar é um exercício de paciência, de amor, de liberdade, sugiro que você experimente fazê-lo e verás que a vida é uma troca.

Uma vez uma amiga me contou que estava passando por dificuldades para arrumar trabalho, e ela sempre foi ótima profissional, teve tudo do melhor, roupas de marcas e inúmeros sapatos, mas ela nunca havia percebido que ao longo da sua vida ela apenas acumulava coisas, só pensava em ter e ter, mas nunca se preocupou em “abrir novos caminhos”, em “ajudar o próximo”, e conversando sugeri que ela separasse alguns sapatos que não usava mais, uns vestidos, blusas e fizesse uma doação. Ela me escutou e meses depois ela me procurou e disse que não sabia o que tinha acontecido, mas depois que ela desapegou de tantas coisas que guardava, tudo na sua vida melhorou e o tão esperado trabalho apareceu. Enfim a sua vida voltou a fluir.

Não é mágica, é apenas uma troca que o universo se dispõe a fazer conosco, só depende de nós estarmos dispostos a “liberar” o caminho e abrir as portas da nossa vida para renovação.

E não deixe para depois se pode começar agora. Experimente praticar o desapego e verás que tudo na sua vida fluirá bem mais leve.

Fonte imagens: https://pixabay.com

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Oscar Wild me embala na ultima noite antes da jornada

Já na hospedaria vamos relaxar um pouco, conhecer os novos peregrinos amigos na noite anterior a grande caminhada rumo a Santiago e a auto-descoberta.

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De volta à pensão, subo outra vez as escadas em  carpete azul escuro e macio e seu corrimão em madeira é extremamente liso pelo uso. No primeiro andar uma porta a direita dá acesso a uma confortável sala de leitura, com poltronas macias e sóbrias. Um abajur alto ilumina cada uma das poltronas. Uma escrivaninha e uma estante com livros completam o ambiente a iluminação deixa tudo muito agradável. É um cantinho bastante convidativo para iniciar a leitura que logo será interrompida por uma deliciosa siesta.

O quarto fica no terceiro andar e é fácil notar que tudo ali foi arrumado com muito cuidado para deixá-lo como um lar. Duas camas muito bem arrumadas compõem o ambiente com uma poltrona irmã das da sala de leitura, ela é forrada com um tecido macio e que reage ao toque se penteia e muda de cor. A frente da poltrona uma escrivaninha em madeira sem muitos detalhes, quase crua. Atrás desta duas janelas retangulares com moldura em madeira e vidros transparentes, o vidro é marcado por ondulações do tempo e transparece a rua principal de Saint-Jean e o céu ainda  azul, mesmo com o adiantado da hora e a lua começa a aparecer. As duas camas são gostosas e parecem idênticas com suas colchas iguais, ambas possuem as mesmas flores coloridas desenhadas. Sob a colcha varias camadas de lençóis e outros tecidos aos quais não sei dar nomes. Nas paredes do quarto sobre cada uma das camas um quadro com frases de Volter e de Oscar wild, Oscar Wilde fala de como é sedutora a tentação, “Posso resistir a tudo, menos à tentação.”, essa foi à cama que escolhi para minha primeira noite, o sono veio leve e tranqüilo.

O sono leve e tranqüilo era o prelúdio do meu nascimento no caminho, como um feto que tem a carne limpa e desprovida de consciência de experiências anteriores e do real objetivo de sua missão, eu nascia, nascia sabendo que meu guia nessa jornada era meu inconsciente, e devo ouvi-lo com sabedoria.

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Uma cerveja com os peregrinos amigos.

Já na hospedaria vamos relaxar um pouco, conhecer os novos peregrinos amigos na noite anterior a grande caminhada rumo a Santiago e a auto-descoberta.

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Uma cerveja já espera por mim a mesa. Agora devidamente instalado estou tranqüilo, estava preocupado pois não sabia se a minha reserva na pensão ainda estaria ativa e se não tivesse mais reserva será que teria albergue para passar a noite? Outra duvida que tinha era se teria de vir sozinho a Saint-Jean, isso me preocupava, pois seria bastante oneroso, mas enfim, tudo saiu como deveria e posso brindar ao sucesso da primeira etapa.

Passadas as tensões começo a relaxar e prestar mais atenção aos meus novos amigos. Ainda me impressiona o tamanho da mochila de Boyco, mas talvez ele esteja certo em trazer um mochila bem compacta, mas nem saco de dormir ele tem, ao menos acho que não. Ele tem uma fala mansa e conta que resolveu fazer o caminho a pouco tempo, imagino que por este motivo tenha uma mochila tão pequena, ele também diz que gosta muito de caminhar. Torres por sua vez é bombeiro em Marselha e não é a sua primeira vez no caminho. Torres tem aparência jovem e sempre carrega um sorriso no rosto e tem uma energia boa. A cerveja chega ao fim e é hora de sairmos para conhecer a pequena cidade. A cada passo ela fica mais charmosa e aconchegante, uma sensação de relaxamento me invade em meio a ruas adornadas por flores, arvores, arbustos e trepadeiras bem diferentes das que conheço. A arquitetura é detalhista e de muito bom gosto. Caminhamos um pouco mais e com alegria encontramos um restaurante onde na fachada vejo uma bandeira em verde e amarelo e convido os meninos a experimentarmos o lugar, eles aprovam a idéia sem restrição.

Pergunto da bandeira estendida a frente do restaurante e ele nos informa que é de um dos atendentes, mas que ele estaria de folga naquele dia. O lugar é agradável e pedimos o nosso primeiro menu do peregrino. O menu do peregrino é oferecido ao longo de todo o caminho em inúmeros restaurantes, inclusive os das grandes cidades, ele é composto por uma entrada, prato principal e sobremesa, sempre acompanhados de uma cesta de pães, água e ou vinho e tudo isso a um custo médio de dez euros. Os pedidos que fizemos a pouco não demoraram a chegar e logo estamos os três estufados de tanto comer e beber. Hora de me despedir e descansar para a jornada de amanhã.

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Passeio por Saint-Jean-Pied-de-Port

Já em Saint-Jean-Pied-de-Port é hora de encontrar a hospedaria e relaxar antes do inicio da grande caminhada rumo a Santiago e a auto-descoberta.

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Conquistei minha credencial em meu País, com um grupo de peregrinos que é conduzido pelo Sr. Manoel, mas aproveitei para na oficina pegar mais uma credencial para um grande amigo que deveria estar no caminho comigo, mas não pode. O Universo quis que eu fizesse o caminho em separado dele e levarei essa credencial extra comigo e tentarei selá-la em todos os pontos onde eu me hospedar, foi à forma que encontrei de fazermos o caminho de algum jeito juntos. Recebo também além da credencial e os selos alguns papeis com orientações sobre direções, distancia e altitude de cada etapa, e uma lista de cidades e povoados que encontraria ao longo de cada etapa com informações a respeito da sua infraestrutura de bares, restaurantes, caixas eletrônicos, albergues e algumas outras. Por estar sozinho optei por trazer para minha segurança um aparelho de GPS com todo o caminho mapeado, logo tomei aquelas informações como desnecessárias, mas as guardei na mochila.

Torres e Boyco após selarem suas credenciais me encontram do lado de fora da oficina. Eu tenho reserva em uma pensão próxima da oficina e eles irão ficar no albergue ali em frente. Quando chegamos ao albergue ele já está lotado, mas nos informam que há um outro do outro lado da rua. Seguimos até este e eles se acomodaram. Eu os convido para irmos a pensão para poder comer algo antes de dormir. Será oportuno também brindar o inicio do nosso caminho.

Saímos animados pela pequena e charmosa Saint-Jean, vamos conversando de forma animada e eu na expectativa de que a cidade seja pequena o suficiente para que eu tropece com a pensão sem dificuldades. Claro que isso não acontece, não é tão simples assim encontrá-la, resolvo recorrer ao mapa no celular, claro que isso também não funciona, vamos então ao mais tradicional e antigo método de se encontrar algum lugar, perguntar; vejo logo um senhor entrando em sua casa e resolvo indagá-lo a respeito da pensão e para minha sorte ele sabia onde era e me informa que ela ficava na rua dos fundos da sua residência. Contornamos a quadra e chegamos ao restaurante-bar-residência-e-pensão Itzalpea, o lugar era super charmoso, como tudo naquela cidade. Era aconchegante e com um ar de simplicidade, mas com um toque elegante. Sou atendido por uma senhora e sua filha, imagino que sejam mãe e filha, pois elas se parecem, partilham um mesmo sorriso, elas aparentemente me cumprimentam, mas de suas bocas saem muitas palavras as quais eu não podia entender, mesmo assim continuavam sendo gostosas de se ouvir, tinham um tom sereno. Não demora muito e a filha me aponta as escadas me convidando a acompanhá-la. Subo logo atrás dela e descubro que seu nome é Marie. Marie veste uma saia de grandes bolas brancas em um fundo negro, o dorso do seu corpo é coberto por uma camisa branca de tecido leve e cheia de movimento, seus cabelos são longos e tão negros quanto à noite, os seus cachos alvoroçados contrastam com sua pele branca de onde saltam olhos brilhantes e profundos com pupilas dilatadas sob a pouca luz. Ela se move com maestria sobre os degraus da escada encarpetada, quase flutuando em cada um deles. ofegante eu sigo logo atrás hipnotizado pelos seus movimentos. Ao chegarmos ao quarto Marie me entrega as chaves, me viro para ver o quarto e quando olho novamente ela já desapareceu. O quarto tem uma energia boa, porém meus dois novos amigos estavam esperando, jogo a mochila na cama e desço para brindar com eles o sucesso do inicio da nossa jornada.


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imagem: raileurope

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Chegada a Saint-Jean-Pied-de-Port – A credencial de peregrino

De táxi e com novos amigos, e já peregrino, seguimos de Roscenvalles até a caminho da cidade francesa de Saint-Jean-Pied-de-Port para iniciar a jornada pelo caminho de Santiago de Compostela. Lá selo pela primeira vez minha credencial de peregrino.

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Saint-Jean-Pied-de-Port-3


Como iríamos de táxi, Torres sugeriu que conhecêssemos a Plaza del Toro e a rua onde acontece a tradicional festa de San Firmin. Nesta festa pessoas correm por uma rua fechada e cercada por taboas de madeira para que os comércios não sejam danificados após serem invadidos por algum touro enfurecido. Estes touros são soltos no inicio da rua e sobem correndo atrás destes foliões valentes que os desafiam. Todos os foliões corredores usam camisas brancas e lenços vermelhos no pescoço, alem disso têm nas mãos um tubo feito de jornal enrolado para cutucar o touro caso ele chegue muito perto. Fico imaginando o quanto os touros devem ficar intimidados vendo aqueles bonecos com um pedaço de jornal nas mãos, mas enfim, é assim que funciona. Depois de caminharmos pelas ruas do trajeto dos touros chegarmos a Plaza del Toro onde termina a corrida e os touros entram na grande arena logo atrás dos corredores que são aplaudidos pela sua bravura. Eu usaria outra palavra para a atitude deles.

Chamamos um táxi e aguardamos alguns minutos. Assim que ele chega, Torres nosso guia espanhol, toma assento no banco da frente e eu e Boyco entramos no banco de trás. De pronto o motorista explica que a estrada é muito sinuosa e algumas pessoas passam mal, logo se ficarmos enjoados devemos avisá-lo para que ele encoste. Imagino eu que alguém deve ter passado mal sem nenhum aviso a ele e com certeza lhe sobrou bastante trabalho para limpar o carro. Tratei logo de abrir a janela, não sou muito bom em estradas sinuosas.

Após algum tempo no carro e algumas curvas tudo vai muito bem e nem sinto a estrada sinuosa, acho que estou meio deslumbrado pela paisagem e imaginando que logo estarei passando por aquele caminho de novo, mas será fora do carro, a pé e com mochila nas costas.

O restante da viagem transcorre sem dificuldades e com pouco mais de uma hora chegamos à França, chegamos à Saint-Jean-Pied-de-Port. O motorista nos deixa na porta da oficina dos peregrinos, local onde os peregrinos são recebidos e selam suas credenciais e pegam orientações a respeito do caminho. Nesta oficina trabalhava Madame Debrill, uma das figuras lendárias do caminho, ela é autora da frase imortalizada entre os peregrinos

“O peregrino caminha o quanto pode, não o quanto quer.”

Ela hoje já não cuida mais dos peregrinos terrenos, já trabalha oriente eterno.

Na oficina observo o obvio, todos os voluntários falam francês, mas o processo já esta tão automatizado que o idioma não é um entrave, com certeza se eu falasse francês poderia entender o que estão dizendo e quem sabe até ouvir alguma historia bacana, mas ouço apenas sons que são gostosos de se ouvir e por fim tudo da certo e recebo o primeiro carimbo na minha credencial.


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Chegada a Saint-Jean-Pied-de-Port – Os peregrinos e o táxi

Peregrino de trem, a caminho da cidade francesa de Saint-Jean-Pied-de-Port para iniciar a jornada pelo caminho de Santiago de Compostela faço amizades que valerão por todo o caminho e pela vida.

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Saint-Jean-Pied-de-Port-2
Ponte em Saint-Jean-Pied-de-Port

Ao meu lado não tem nenhum passageiro, posso usar todo o espaço das duas poltronas para relaxar, no braço de cada uma delas vejo um encaixe para fones de ouvidos e logo em seguida um funcionário do trem passa oferecendo fones, eu os dispenso, pois já possuo um que gosto muito e que me acompanha há tempos. Plugo o fone e começo a passear pelas estações de rádio, até que em uma delas o locutor lê pequenos contos lúdicos e cheios de fantasia. Fico feliz em ouvi-los e perceber que mesmo não dominando o idioma consigo compreender as historias. São historias infantis interpretadas com boa entonação, alguns efeitos sonoros e caracterização de cada personagem.

Algumas horas se passam, muitas historias doces são contadas e o trem já se aproxima da estação final. Vejo novamente o passageiro da mochila com bastões e ele me observa mais uma vez, o trem para, as portas são abertas e fico na fila para deixar o trem. O suposto peregrino sai antes de mim e o vejo indo em direção a porta de vidros que se abre automaticamente, uma placa acima dela indica ser a saída. Caminho a passos largos para alcançá-lo e já o encontro do lado de fora parado como se me esperasse, me aproximo o cumprimento, e sim ele é um peregrino e está a caminho de Saint-Jean. Ele é espanhol e seu nome é Torres. Existe um pouco de dificuldade entre nós com o idioma, mas quando se tem boa vontade entres às partes a comunicação flui. Ali pude enxergar o quanto às expressões corporais participam do dialogo.

Não se passa muito tempo e outra pessoa se aproxima, e apesar da mochila muito pequena e nenhum bastão ele também é um peregrino, seu nome é Boyco e ele é búlgaro, mas mora na Inglaterra. Boyco não fala espanhol. Na verdade eu também não falo, assim como Torres não fala inglês e eu também não, mas Boyco fala italiano e então definimos nossa comunicação em uma mistura de espanhol, italiano e um portunhol mal falado, mas nos entendemos.

Depois de alguns minutos de conversa sobre as formas para se chegar a cidade de Saint-Jean decidimos ir para a estação de ônibus para tentar uma linha que poderia ir a Roscenvalles. Roscenvalles é a cidade na Espanha mais próxima de Saint-Jean.

Já na estação muita desinformação e dificuldade para encontrar alguém das companhias responsáveis pelas linhas de ônibus que fazem a rota para a cidade e já estávamos por desistir de procurar alguém quando descobrimos através de uma placa que o ônibus que vai a Roscenvalles só sai no período da tarde e já havia saído naquele dia, nos restava apenas tomar um táxi para chegarmos ainda naquele dia.


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